Todo dia é a mesma coisa: o despertador toca, eu desligo e durmo. O despertador toca, eu desligo e durmo. Fico fazendo isso até que a sensação de acordar seja a menos dolorosa possível. Digo dolorosa, porque quando piso fora de casa e atravesso a rua, ainda com os cabelos desarrumados e as olheiras causadas pela insônia, lembro da difícil tarefa que tenho pela frente: chegar ao trabalho.
O trajeto é longo e a missão é difícil. Principalmente pelo fato de que o metrô da capital paulista nunca (e quando eu digo nunca, é nunca mesmo) está vazio. Em meio a empurrões, gente presa na porta, odores desagradáveis e a completa falta de respeito ao próximo, estou eu, sentindo um ódio mortal pelas manhãs.
Considero isso como a melhor e mais sucinta definição de caos urbano. Alguns até dizem que a linha central do metrô foi projetada pelo próprio Capeta. Outros se arriscam ainda mais, dizendo que após a última estação o trem ruma direto ao inferno. Eu apenas conto os segundos até a minha estação-destino.
Sonho com um dia em que entrarei no metrô e ele estará absolutamente vazio. Um dia em que eu possa escolher em qual dos bancos sentar. Um dia em que eu possa me acomodar no assento reservado aos idosos e poder tirar um breve cochilo, sem ter que me preocupar em ceder o lugar, caso um dos citados entre no trem. Mas sempre que passo da catraca e estou descendo a escada rolante, percebo: é um sonho impossível.
Já são oito e meia da manhã e cá estou eu, de novo. Passaram dois trens e não consegui embarcar, devido à extrema lotação. Ao meu lado está uma garota que estou observando discretamente, mas intensamente, desde que cheguei. Baixa estatura, olhos claros e cabelos curtos e pretos, contrastando com a pele branca e delicada. Nas costas, uma mochila. Na mão, um livro. É o meu livro favorito. Pura coincidência. O próximo trem para e nós entramos, não porque queremos, mas porque é inevitável. Puxo assunto:
- Esse metrô é coisa de louco, né?
Ela responde e a conversa flui de uma maneira incrível. Em 15 minutos, conversamos sobre música, cinema, literatura, arte e chega a ser engraçado como os nossos gostos combinam perfeitamente. Quando estou prestes a lhe pedir o telefone, o trem para e ela diz:
- Eu desço aqui. Olha, sempre pego o metrô. A gente se esbarra por aí.
E com um beijo no meu rosto, se despede e some em meio à multidão.
“A gente se esbarra por aí”? Meu conceito de metrô perfeito parece ter sido abalado. Esse episódio me obrigou a ter que escolher entre dois vazios: o do metrô ou o do coração. E é aí que eu me entrego.
- Dá licença? Eu desço no próximo.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de abril de 2010
E se não descer?
Estava tudo combinado: iriam jantar fora com Tomas e Claudinha, um casal que eles conheciam há algum tempo. Gabriel e Jéssica estavam prontos, apenas esperando a chegada dos amigos:
- Amor?
- Oi...
- Antes de a gente sair, preciso te contar uma coisa.
- Pode falar.
- Não se assusta, hein?
- Agora eu fiquei assustado. O que foi?
- Tá atrasada.
- O quê? Quem? A Claudinha? Ah, amor, você sabe que ela sempre demora séculos pra se arrumar. Daqui a pouco ela tá aí.
- Nããão, amor. Tá atrasada.
- ...
- ...
- O quê?! Você tá falando da... da...
- Pois é. Já se passaram 3 semanas e nada.
- Ai meu Deus! O que eu fiz pra merecer isso!?
- Me comeu sem camisinha...?
- Merda! Merda! Por que você não toma a merda do anticoncepcional?
- Não vem jogar a culpa pra cima de mim, não! Você que quis fazer as coisas desse jeito!
- Mas me falaram que usar camisinha é que nem comer bala embrulhada. Eu queria ver como era. Porra, não devia ter feito isso! Eu nem acho tão ruim comer bala embrulhada. Às vezes, até coloco uns Tridents com papel na boca. E agora? E se não descer?
- E eu é que sei?
- Vou ter que largar o cursinho, desistir da faculdade, arrumar um emprego, deixar de sair com meus amigos... quantas pendências!
- E eu, então? Ficar andando pra lá e pra cá, segurando um bebê, dar de comer, trocar fralda. Isso sem contar que vamos ter que nos casar. Você conhece o papai...
- Casaaaar?! Você ficou louca?!
- Quem ficou louco foi você! Se você me engravidar e não se casar comigo, meu pai arranca seu pinto fora e faz você comer.
- Ai meu Deus! Por que eu fui fazer isso? E agora? E agora?
- ...
- Já sei! Ouvi falar que chá de maconha funciona para abortar. Tem uns remédios também, aí a gente pode...POR QUÊ VOCÊ TÁ RINDO!?
- ..rs...rs...rs
- QUAL É A GRAÇA!? A GENTE TÁ PERDIDO E VOCÊ FICA RINDO AÍ?
- Primeiro de abril! hahahahahaha É mentira, amor. Tô só brincando com você...
- Brincando!? Como você faz uma brincadeira dessa? Tô aqui, quase pulando da janela. Isso não se faz! Porra, que alívio. Não sei se te mato ou se te abraço.
- Ah, vem cá, amor. Desculpa, foi só...Ih, o Tomas e a Claudinha chegaram.
- Tá pronta?
- Amor, o que você acha de ficarmos em casa pra eu me redimir pela brincadeira, hein?
Nesse momento, Gabriel foi até o portão, inventou qualquer desculpa e disse aos amigos que não iria mais. Voltou ao quarto e transou loucamente com a Jéssica, durante a noite inteira. Mal sabiam eles que 9 meses depois nasceria o pequeno Bruninho.
- Amor?
- Oi...
- Antes de a gente sair, preciso te contar uma coisa.
- Pode falar.
- Não se assusta, hein?
- Agora eu fiquei assustado. O que foi?
- Tá atrasada.
- O quê? Quem? A Claudinha? Ah, amor, você sabe que ela sempre demora séculos pra se arrumar. Daqui a pouco ela tá aí.
- Nããão, amor. Tá atrasada.
- ...
- ...
- O quê?! Você tá falando da... da...
- Pois é. Já se passaram 3 semanas e nada.
- Ai meu Deus! O que eu fiz pra merecer isso!?
- Me comeu sem camisinha...?
- Merda! Merda! Por que você não toma a merda do anticoncepcional?
- Não vem jogar a culpa pra cima de mim, não! Você que quis fazer as coisas desse jeito!
- Mas me falaram que usar camisinha é que nem comer bala embrulhada. Eu queria ver como era. Porra, não devia ter feito isso! Eu nem acho tão ruim comer bala embrulhada. Às vezes, até coloco uns Tridents com papel na boca. E agora? E se não descer?
- E eu é que sei?
- Vou ter que largar o cursinho, desistir da faculdade, arrumar um emprego, deixar de sair com meus amigos... quantas pendências!
- E eu, então? Ficar andando pra lá e pra cá, segurando um bebê, dar de comer, trocar fralda. Isso sem contar que vamos ter que nos casar. Você conhece o papai...
- Casaaaar?! Você ficou louca?!
- Quem ficou louco foi você! Se você me engravidar e não se casar comigo, meu pai arranca seu pinto fora e faz você comer.
- Ai meu Deus! Por que eu fui fazer isso? E agora? E agora?
- ...
- Já sei! Ouvi falar que chá de maconha funciona para abortar. Tem uns remédios também, aí a gente pode...POR QUÊ VOCÊ TÁ RINDO!?
- ..rs...rs...rs
- QUAL É A GRAÇA!? A GENTE TÁ PERDIDO E VOCÊ FICA RINDO AÍ?
- Primeiro de abril! hahahahahaha É mentira, amor. Tô só brincando com você...
- Brincando!? Como você faz uma brincadeira dessa? Tô aqui, quase pulando da janela. Isso não se faz! Porra, que alívio. Não sei se te mato ou se te abraço.
- Ah, vem cá, amor. Desculpa, foi só...Ih, o Tomas e a Claudinha chegaram.
- Tá pronta?
- Amor, o que você acha de ficarmos em casa pra eu me redimir pela brincadeira, hein?
Nesse momento, Gabriel foi até o portão, inventou qualquer desculpa e disse aos amigos que não iria mais. Voltou ao quarto e transou loucamente com a Jéssica, durante a noite inteira. Mal sabiam eles que 9 meses depois nasceria o pequeno Bruninho.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Só mais um covarde no mundo dos acordes.
Deitou na cama, pegou o violão e começou a entoar as canções mais belas e tristes que conhecia. Precisava expulsar da mente e do coração toda aquela angústia e incerteza que lhe tirava o ar todos os finais de tarde. E a melhor maneira de se fazer isso era através da música. Pelo menos, pra ele.
O engraçado era que as canções dos outros, muitas vezes, diziam mais sobre a sua vida do que suas próprias composições. Foi aí que ele percebeu: não era o único viciado nessa droga de amor. Passou desde a visão romântica de Amarante, até a visão quase suicída de Yorke. Identificou-se com os dois. Para ele, o amor sempre foi assim, admirável e destruidor.
A cada nota que soava, a cada palavra que proferia, uma lágrima, mais pesada que o céu, escorria em seu rosto e caía como chumbo, ora nas cordas do instrumento, ora em seu próprio braço.
Naquele momento, sua vontade era de pegar o primeiro ônibus rumo à casa da amada e lhe dizer todas as verdades entaladas na garganta. Jogar todo aquele sofrimento pra fora, ouvir uma resposta compreensiva e tascar o beijo mais demorado e apaixonante de toda a sua vida.
Mas não tinha coragem. O medo de perdê-la fazia suas pernas bambearem e seu coração disparar tanto, que as chances de ter um treco antes de chegar na esquina eram de 100%.
Sua mente e seu corpo o fizeram desistir da ideia. Pegou uma folha de papel e aquela caneta sem tampa e escreveu o título de seu próximo sucesso incompreendido: “A diferença entre saudade e ausência”.
E, mais uma vez, a indignação virou música. Só mais um covarde no mundo dos acordes.
O engraçado era que as canções dos outros, muitas vezes, diziam mais sobre a sua vida do que suas próprias composições. Foi aí que ele percebeu: não era o único viciado nessa droga de amor. Passou desde a visão romântica de Amarante, até a visão quase suicída de Yorke. Identificou-se com os dois. Para ele, o amor sempre foi assim, admirável e destruidor.
A cada nota que soava, a cada palavra que proferia, uma lágrima, mais pesada que o céu, escorria em seu rosto e caía como chumbo, ora nas cordas do instrumento, ora em seu próprio braço.
Naquele momento, sua vontade era de pegar o primeiro ônibus rumo à casa da amada e lhe dizer todas as verdades entaladas na garganta. Jogar todo aquele sofrimento pra fora, ouvir uma resposta compreensiva e tascar o beijo mais demorado e apaixonante de toda a sua vida.
Mas não tinha coragem. O medo de perdê-la fazia suas pernas bambearem e seu coração disparar tanto, que as chances de ter um treco antes de chegar na esquina eram de 100%.
Sua mente e seu corpo o fizeram desistir da ideia. Pegou uma folha de papel e aquela caneta sem tampa e escreveu o título de seu próximo sucesso incompreendido: “A diferença entre saudade e ausência”.
E, mais uma vez, a indignação virou música. Só mais um covarde no mundo dos acordes.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Enche meu copo. 20 vezes.
Pode não parecer muito tempo para algumas pessoas, mas pra mim é um eternidade. E o relógio continua.
Mais um dia, mais um ano.
Menos um dia, menos um ano.
Tudo depende do ponto de vista. E o que eu vejo nisso tudo é um tempo impiedoso, que nos dá a alegria de viver intensamente, aproveitando ao máximo a lucidez, as articulações e a beleza, e vai nos tirando tudo isso, pouco a pouco.
Quando menos esperamos...PUF! Estamos presos em um trabalho que nos consome, correndo para chegar em casa a tempo da novela e já não temos mais a rapidez de raciocínio que nos era característica.
Tudo bem, é exagero da minha parte dizer isso no que muitos consideram a flor da idade. Mas a verdade é que, a cada ano que passa, sinto mais responsabilidades sendo atribuídas a mim e menos tempo para as coisas que realmente importam na vida.
Tenho um medo desgraçado de cair numa rotina incessante, onde nada é novo. Você acorda com o mesmo toque ridículo de celular e segue a mesma sequência: água no rosto, leite na caneca, escova nos dentes, chave na porta, pé no ônibus, reclamações no ouvido, arroz e feijão na goela e cabeça no travesseiro. Acorda no outro dia e repete tudo da mesma maneira, pois, se algo for mudado, você não consegue prosseguir com o seu dia.
Eu não quero isso.
Eu não posso viver assim.
Eu escolho a vida.
A vida nova a cada dia.
Quero passar os próximos 20, 40, 60 anos, com esse mesmo pensamento. Mas só de imaginar as próximas fases da minha vida, já sinto repulsa. Quero viver, não sobreviver. E todos esses pensamentos me levam a uma angustiante dúvida:
Será que eu já sou um...adulto?
Putz, enche meu copo, por favor.
Mais um dia, mais um ano.
Menos um dia, menos um ano.
Tudo depende do ponto de vista. E o que eu vejo nisso tudo é um tempo impiedoso, que nos dá a alegria de viver intensamente, aproveitando ao máximo a lucidez, as articulações e a beleza, e vai nos tirando tudo isso, pouco a pouco.
Quando menos esperamos...PUF! Estamos presos em um trabalho que nos consome, correndo para chegar em casa a tempo da novela e já não temos mais a rapidez de raciocínio que nos era característica.
Tudo bem, é exagero da minha parte dizer isso no que muitos consideram a flor da idade. Mas a verdade é que, a cada ano que passa, sinto mais responsabilidades sendo atribuídas a mim e menos tempo para as coisas que realmente importam na vida.
Tenho um medo desgraçado de cair numa rotina incessante, onde nada é novo. Você acorda com o mesmo toque ridículo de celular e segue a mesma sequência: água no rosto, leite na caneca, escova nos dentes, chave na porta, pé no ônibus, reclamações no ouvido, arroz e feijão na goela e cabeça no travesseiro. Acorda no outro dia e repete tudo da mesma maneira, pois, se algo for mudado, você não consegue prosseguir com o seu dia.
Eu não quero isso.
Eu não posso viver assim.
Eu escolho a vida.
A vida nova a cada dia.
Quero passar os próximos 20, 40, 60 anos, com esse mesmo pensamento. Mas só de imaginar as próximas fases da minha vida, já sinto repulsa. Quero viver, não sobreviver. E todos esses pensamentos me levam a uma angustiante dúvida:
Será que eu já sou um...adulto?
Putz, enche meu copo, por favor.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Um lado da história que você não conhecia
Muitos se surpreendem ao me ver parando um tiro de revólver com o olho. Ou recebendo todo tipo de pancada sem esboçar o mínimo de dor. Pra mim, isso é normal. Esses métodos humanos de ferir o próximo não funcionam comigo. Bombas, facas, socos. Resisto a tudo isso sem problema algum. Não é à toa que me chamam de Super-Homem.
O que muitos não sabem é que meu alter-ego, Clark Kent, não passa de um mero disfarce. E, consequentemente, essa ‘paixão’ por Lois Lane também é uma farsa. A verdade é que tenho um outro grande amor e, esse sim, é sincero. Aliás, essa é a única das invenções humanas que consegue me ferir: o amor. Vocês vão entender o porquê.
Nunca contei isso a ninguém, mas sou perdidamente apaixonado pela Kryptonita. É, isso mesmo. A Kryptonita. E aí você me diz, confuso: “Mas a Kryptonita não é aquela coisa que te deixa fraco?” Claro que é! E o que é o amor, senão aquilo que suga todas as suas forças? Que te deixa totalmente vulnerável a qualquer intromissão e humilhação? Posso não ser desse planeta, mas sei que isso é uma certeza.
Quando as pessoas estão apaixonadas, fazem coisas das quais se arrependeriam em uma situação normal. Numa busca incessante pelo amor mútuo, choram e sorriem, brigam e se entendem, fazem sexo e cultivam o ódio. É sempre esse paradoxo. Sentimentos que podem ser considerados antônimos, caminhando juntos. Concorda?
Então por que é tão difícil aceitar o meu amor pela pequena ‘Kryp’? Nossa relação é exatamente essa. Chega a ser uma antítese. Pois, sempre que eu estou chegando perto dela, quando estou prestes a desvendar os seus segredos, ela emite uma forte radiação que esmaga meu coração e faz com que eu caia de joelhos perante sua imagem. E eu não sei se ela faz isso por medo de viver comigo ou se, simplesmente, não pode deixar de ser assim: corrosiva. Essa dúvida é o que me mata. É o que me faz deixar de atender chamados de socorro. É o que me faz deixar de lado toda essa responsabilidade que jogam em cima de mim, de sempre ter um sorriso no rosto e uma atitude nobre.
Sinceramente, essa é a arma mais letal que pode ser usada contra mim e, agora que revelei isso a todos, podem dar o tiro de misericórdia. Estou apaixonado.
O que muitos não sabem é que meu alter-ego, Clark Kent, não passa de um mero disfarce. E, consequentemente, essa ‘paixão’ por Lois Lane também é uma farsa. A verdade é que tenho um outro grande amor e, esse sim, é sincero. Aliás, essa é a única das invenções humanas que consegue me ferir: o amor. Vocês vão entender o porquê.
Nunca contei isso a ninguém, mas sou perdidamente apaixonado pela Kryptonita. É, isso mesmo. A Kryptonita. E aí você me diz, confuso: “Mas a Kryptonita não é aquela coisa que te deixa fraco?” Claro que é! E o que é o amor, senão aquilo que suga todas as suas forças? Que te deixa totalmente vulnerável a qualquer intromissão e humilhação? Posso não ser desse planeta, mas sei que isso é uma certeza.
Quando as pessoas estão apaixonadas, fazem coisas das quais se arrependeriam em uma situação normal. Numa busca incessante pelo amor mútuo, choram e sorriem, brigam e se entendem, fazem sexo e cultivam o ódio. É sempre esse paradoxo. Sentimentos que podem ser considerados antônimos, caminhando juntos. Concorda?
Então por que é tão difícil aceitar o meu amor pela pequena ‘Kryp’? Nossa relação é exatamente essa. Chega a ser uma antítese. Pois, sempre que eu estou chegando perto dela, quando estou prestes a desvendar os seus segredos, ela emite uma forte radiação que esmaga meu coração e faz com que eu caia de joelhos perante sua imagem. E eu não sei se ela faz isso por medo de viver comigo ou se, simplesmente, não pode deixar de ser assim: corrosiva. Essa dúvida é o que me mata. É o que me faz deixar de atender chamados de socorro. É o que me faz deixar de lado toda essa responsabilidade que jogam em cima de mim, de sempre ter um sorriso no rosto e uma atitude nobre.
Sinceramente, essa é a arma mais letal que pode ser usada contra mim e, agora que revelei isso a todos, podem dar o tiro de misericórdia. Estou apaixonado.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Um cigarro, uma cerveja e um beijo.
Ela deu o último trago em seu cigarro. Aspirou aquela fumaça densa e branca, e deixou-a aproveitar a presença em seus pulmões durante alguns preciosos segundos. Então, soltou-a para atmosfera ao seu redor. A neblina foi se esvaindo, até que desapareceu, como se não houvesse mais motivo para existir, depois de ter vivido o ápice de sua trajetória no corpo daquela pequena.
Ele, por sua vez, envolveu seus dedos no velho copo de cerveja. O líquido já havia perdido a frieza do início, talvez devido ao calor de sua mão, por saber que estava abraçado com a obra-prima da natureza. Levou o copo até os lábios e deixou-se satisfazer com os últimos dois goles mornos. Apesar da temperatura da bebida, sentiu toda a refrescância que ela poderia lhe proporcionar. Então, deixou o copo de lado e lançou seu olhar à miúda que se encontrava no contorno de seus braços. Ela tinha o aroma de uma flor. Ele não sabia qual, mas sabia que ela era exatamente isso: uma flor. Das mais belas e raras. Daquelas que não se acha procurando, se acha por pura sorte.
Aproximou tanto os seus lábios dos dela, que era possível sentir o relevo formado pela pele. Parou e começou a admirar seu rosto bem de perto, sem dizer uma palavra. Tirou-lhe os cabelos do rosto, abraçou-a pela cintura e trouxe a pequena flor para mais junto de seu corpo. Seus lábios se encontraram novamente, dessa vez, com maior intensidade. A refrescância da cerveja e a densidade do cigarro eram evidentes no beijo, e isso só lhes dava vontade de continuar o ato.
Indiretamente, os prazeres que cada vício oferecia se misturaram a acabaram criando uma terceira dependência. Naquela noite, ele descobriu que naquela flor existe muito mais do que aroma e beleza. Existe um vício. E a dependência do cigarro e da cerveja não chegam nem perto da que ele causa.
Ele, por sua vez, envolveu seus dedos no velho copo de cerveja. O líquido já havia perdido a frieza do início, talvez devido ao calor de sua mão, por saber que estava abraçado com a obra-prima da natureza. Levou o copo até os lábios e deixou-se satisfazer com os últimos dois goles mornos. Apesar da temperatura da bebida, sentiu toda a refrescância que ela poderia lhe proporcionar. Então, deixou o copo de lado e lançou seu olhar à miúda que se encontrava no contorno de seus braços. Ela tinha o aroma de uma flor. Ele não sabia qual, mas sabia que ela era exatamente isso: uma flor. Das mais belas e raras. Daquelas que não se acha procurando, se acha por pura sorte.
Aproximou tanto os seus lábios dos dela, que era possível sentir o relevo formado pela pele. Parou e começou a admirar seu rosto bem de perto, sem dizer uma palavra. Tirou-lhe os cabelos do rosto, abraçou-a pela cintura e trouxe a pequena flor para mais junto de seu corpo. Seus lábios se encontraram novamente, dessa vez, com maior intensidade. A refrescância da cerveja e a densidade do cigarro eram evidentes no beijo, e isso só lhes dava vontade de continuar o ato.
Indiretamente, os prazeres que cada vício oferecia se misturaram a acabaram criando uma terceira dependência. Naquela noite, ele descobriu que naquela flor existe muito mais do que aroma e beleza. Existe um vício. E a dependência do cigarro e da cerveja não chegam nem perto da que ele causa.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Nunca soube
Você não sabe o que é o amor. Nunca soube.
Diz que já se apaixonou por algumas mulheres. Poucas, é verdade. Mas tudo isso é só para disfarçar essa solidão que corrompe o seu âmago, e fingir que você não derruba meio litro de lágrimas quando encosta a cabeça inquieta no travesseiro.
Você não sabe o que é o amor. Nunca soube.
Vive deixando recados terminados com ‘amo você’ e mal imagina o enorme significado que essas duas palavras trazem em suas entrelinhas. Faz gestos carinhosos e usa suas piadinhas podres e medíocres para se desviar quando o assunto é sentimento.
Você não sabe o que é o amor. Nunca soube.
Dá valor extremo à carne e à sua apreciação, mas se esquece que o que deve ser apreciado está muito além disso. Está no coração. Mas não naquele que bombeia o sangue. Naquele que bombeia a vida.
Você não sabe o que é o amor. Nunca soube.
Nunca ficou de frente com a pessoa “amada”, olhando no fundo dos seus olhos, sem dizer uma única palavra por 5 minutos, só para ver que, com ela, você não sente constrangimento algum.
Você não sabe o que é o amor. Nunca soube. Nunca saberá.
Dói, não é?
Você não sabe o quanto.
Diz que já se apaixonou por algumas mulheres. Poucas, é verdade. Mas tudo isso é só para disfarçar essa solidão que corrompe o seu âmago, e fingir que você não derruba meio litro de lágrimas quando encosta a cabeça inquieta no travesseiro.
Você não sabe o que é o amor. Nunca soube.
Vive deixando recados terminados com ‘amo você’ e mal imagina o enorme significado que essas duas palavras trazem em suas entrelinhas. Faz gestos carinhosos e usa suas piadinhas podres e medíocres para se desviar quando o assunto é sentimento.
Você não sabe o que é o amor. Nunca soube.
Dá valor extremo à carne e à sua apreciação, mas se esquece que o que deve ser apreciado está muito além disso. Está no coração. Mas não naquele que bombeia o sangue. Naquele que bombeia a vida.
Você não sabe o que é o amor. Nunca soube.
Nunca ficou de frente com a pessoa “amada”, olhando no fundo dos seus olhos, sem dizer uma única palavra por 5 minutos, só para ver que, com ela, você não sente constrangimento algum.
Você não sabe o que é o amor. Nunca soube. Nunca saberá.
Dói, não é?
Você não sabe o quanto.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
O poder da cerveja
Até os 15 anos, o que a cerveja representava pra mim era poder. Nas reuniões de família, via meu pai e todos os meus tios virando goela abaixo aquele líquido dourado com uma espessa camada branca. Após dar um gole, cada um deles tomava as rédeas da conversa e falavam sobre diversos assuntos em vozes excessivamente altas, fazendo com que toda família ouvisse cada palavra do que eles tinham a dizer.
Comigo era exatamente o contrário. Na flor dos meus 8 anos, ao tentar dizer algo que fosse levado a sério, minha vó e as outras mulheres da família diziam algo meigo, apertavam minhas bochechas e voltavam às suas atividades anteriores. Ninguém estava realmente interessado em saber o que eu achava das coisas.
Automaticamente, liguei os fatos e pensei que a cerveja fosse um elixir que fazia sua opinião ser ouvida com respeito e atenção. Por várias vezes, tentei saborear alguns goles, mas meu pai nunca deixava eu passar da espuma. Isso me frustrava. Me deixava com um sentimento de injustiça. Por que todos os homens da família podiam tomar e usufruir daquele poder, e eu só podia tocar os lábios na espuma?
Passado um tempo, um longo tempo por sinal, tomei minha primeira cerveja. E a segunda. E a terceira. E a quarta. Até que entrei na faculdade e perdi a conta. Então, percebi: quanto mais cervejas você toma, menos poder de opinião você tem, pois as chances de estar caído no chão do bar são muitas. E isso, definitivamente, não lhe dá voz para nada.
Comigo era exatamente o contrário. Na flor dos meus 8 anos, ao tentar dizer algo que fosse levado a sério, minha vó e as outras mulheres da família diziam algo meigo, apertavam minhas bochechas e voltavam às suas atividades anteriores. Ninguém estava realmente interessado em saber o que eu achava das coisas.
Automaticamente, liguei os fatos e pensei que a cerveja fosse um elixir que fazia sua opinião ser ouvida com respeito e atenção. Por várias vezes, tentei saborear alguns goles, mas meu pai nunca deixava eu passar da espuma. Isso me frustrava. Me deixava com um sentimento de injustiça. Por que todos os homens da família podiam tomar e usufruir daquele poder, e eu só podia tocar os lábios na espuma?
Passado um tempo, um longo tempo por sinal, tomei minha primeira cerveja. E a segunda. E a terceira. E a quarta. Até que entrei na faculdade e perdi a conta. Então, percebi: quanto mais cervejas você toma, menos poder de opinião você tem, pois as chances de estar caído no chão do bar são muitas. E isso, definitivamente, não lhe dá voz para nada.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Bom dia
Mais uma vez, acordei cedo em um domingo, com o som insuportável da trilha sonora de meu vizinho. Se fosse um dia normal, eu até poderia quebrar a rotina e tocar a campainha da casa ao lado para dar umas cacetadas nele.
Mas não era.
O que me impediu de fazer um “favor” para a humanidade foi o calor que senti ao me espreguiçar e deslocar o braço para a minha esquerda.
Ela estava lá.
E o melhor: ainda estava dormindo. Até aquele momento, não havia a visto assim e, embora ela seja uma criatura adorável enquanto acordada, vê-la inspirando e expirando, profunda e tranquilamente, foi uma das sensações mais magníficas que eu tive em toda a minha vida.
Com a janela entreaberta, um feiche de luz atravessava todo o quarto e repousava em seu corpo, dando-lhe um aspecto mais angelical do que o comum. Então, passei os dedos entre seus cabelos, em busca de uma visão melhor de seu rosto fino e delicado, de uma feminilidade jamais vista.
Naquele momento, percebi: eu era um homem de sorte.
E essa sensação só aumentou quando ela virou o corpo para mim e abriu os olhos. Acho que não poderei reproduzir em simples palavras a imagem que presenciei nesse instante, mas posso dizer que, ao contrário de grande maioria das mulheres, ela não perde uma gota de seu charme quando desperta. Pelo contrário, os olhos apertados e os cabelos desarrumados lhe dão um toque especial que maquiagem alguma poderia executar.
Com o olhar voltado diretamente para os meus olhos, ela deu um sorriso sem mostrar os dentes, voltou a baixar as pálpebras e me abraçou, escondendo seu rosto em meu pescoço.
Então, enchi os pulmões com todo aquele ar sentimental e lhe disse:
- Bom dia.
Muitos dizem que ‘eu te amo’ não é ‘bom dia’. Mas, se ela continuar a acordar do meu lado, eu tenho certeza que será.
Mas não era.
O que me impediu de fazer um “favor” para a humanidade foi o calor que senti ao me espreguiçar e deslocar o braço para a minha esquerda.
Ela estava lá.
E o melhor: ainda estava dormindo. Até aquele momento, não havia a visto assim e, embora ela seja uma criatura adorável enquanto acordada, vê-la inspirando e expirando, profunda e tranquilamente, foi uma das sensações mais magníficas que eu tive em toda a minha vida.
Com a janela entreaberta, um feiche de luz atravessava todo o quarto e repousava em seu corpo, dando-lhe um aspecto mais angelical do que o comum. Então, passei os dedos entre seus cabelos, em busca de uma visão melhor de seu rosto fino e delicado, de uma feminilidade jamais vista.
Naquele momento, percebi: eu era um homem de sorte.
E essa sensação só aumentou quando ela virou o corpo para mim e abriu os olhos. Acho que não poderei reproduzir em simples palavras a imagem que presenciei nesse instante, mas posso dizer que, ao contrário de grande maioria das mulheres, ela não perde uma gota de seu charme quando desperta. Pelo contrário, os olhos apertados e os cabelos desarrumados lhe dão um toque especial que maquiagem alguma poderia executar.
Com o olhar voltado diretamente para os meus olhos, ela deu um sorriso sem mostrar os dentes, voltou a baixar as pálpebras e me abraçou, escondendo seu rosto em meu pescoço.
Então, enchi os pulmões com todo aquele ar sentimental e lhe disse:
- Bom dia.
Muitos dizem que ‘eu te amo’ não é ‘bom dia’. Mas, se ela continuar a acordar do meu lado, eu tenho certeza que será.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Ela me acompanha. E sempre acompanhará.
Depois de mais de um ano destruindo minha vida e dizimando minhas noites de sono, ela finalmente tornou-se minha amiga. Minha melhor amiga. E eu não guardo ressentimentos, muito pelo contrário. Se antes eu implorava ao meu travesseiro para que ela fosse embora, agora eu suplico para que permaneça ao meu lado.
Uma coisa é estar com ela quando não há esperança alguma. Mas, quando você sente que está no jogo, ah amigo, não existe coisa mais gostosa.
Só há um problema: não posso passar muito tempo com ela. Isso desgasta a relação, sabe? Chega uma hora em que começa a me incomodar. Mas depois de passar um tempinho longe, sempre volto para o contorno dos seus braços. E ela sempre me recebe com tanto carinho. É aquela com quem eu sei que sempre poderei contar, independente da situação.
Eu sei, você deve estar se perguntando quem é essa minha amiga, tão estranha e instável, que vem me acompanhando durante tanto tempo. Eu lhe digo, amigo leitor:
Saudade.
A propósito, estou batendo um papo com ela agorinha mesmo.
Uma coisa é estar com ela quando não há esperança alguma. Mas, quando você sente que está no jogo, ah amigo, não existe coisa mais gostosa.
Só há um problema: não posso passar muito tempo com ela. Isso desgasta a relação, sabe? Chega uma hora em que começa a me incomodar. Mas depois de passar um tempinho longe, sempre volto para o contorno dos seus braços. E ela sempre me recebe com tanto carinho. É aquela com quem eu sei que sempre poderei contar, independente da situação.
Eu sei, você deve estar se perguntando quem é essa minha amiga, tão estranha e instável, que vem me acompanhando durante tanto tempo. Eu lhe digo, amigo leitor:
Saudade.
A propósito, estou batendo um papo com ela agorinha mesmo.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Sobre autoajuda e picaretagem.
Sempre tive uma certa repulsa por textos de autoajuda. Acho eles muito forçados, sei lá. A começar pelo nome. Se uma pessoa participa de um processo de autoajuda, não deveria receber conselhos de outra pessoa. Autoajuda, certo?
Outra coisa são as analogias bizarras que os autores dessas pérolas da literatura fazem. Utilizam-se de elementos totalmente absurdos para se chegar a uma conclusão mais absurda ainda. Esses dias recebi um e-mail com aqueles Power Points tosquíssimos, com imagens “motivadoras” ou “emotivas” que acompanham um textinho medíocre escrito em Comic Sans. Nos primeiros slides, desenrolava-se uma história sobre casal de namorados que encontravam um filhote de cachorro no meio da estrada. No final, já estava lhe dando uma lição sobre conseguir alcançar suas metas e blá blá blá.
WTF?!
Imaginem a inúmera quantidade de bizarrices existentes entre o primeiro slide e o último para que houvesse uma ligação entre os dois casos.
E aquelas palestras motivacionais em empresas então? Tem coisa pior do que um babaca, que só está lá porque é famoso ou deu alguma sorte na vida, falando um monte de asneiras do tipo “Vocês conseguem!” “Nada é impossível se você tiver força de vontade!”? Ah, faça-me o favor! Se for para falar besteiras como essas, me paguem a metade do que pagam a esses figuras e eu faço a mesma coisa. E ainda distribuo pirulitos no final do discurso.
Resumindo:
Se você precisa de ajuda, vá conversar com sua família ou seus amigos. Esses, sim, querem o seu bem. Agora, gente que ganha dinheiro para ajudar os outros só ajuda a si mesmo. R.R. Soares & Companhia que o digam.
Mas isso fica para outra oportunidade.
P.S: qualquer semelhança desse texto com algum texto de autoajuda é mera coincidência. Ou não.
Outra coisa são as analogias bizarras que os autores dessas pérolas da literatura fazem. Utilizam-se de elementos totalmente absurdos para se chegar a uma conclusão mais absurda ainda. Esses dias recebi um e-mail com aqueles Power Points tosquíssimos, com imagens “motivadoras” ou “emotivas” que acompanham um textinho medíocre escrito em Comic Sans. Nos primeiros slides, desenrolava-se uma história sobre casal de namorados que encontravam um filhote de cachorro no meio da estrada. No final, já estava lhe dando uma lição sobre conseguir alcançar suas metas e blá blá blá.
WTF?!
Imaginem a inúmera quantidade de bizarrices existentes entre o primeiro slide e o último para que houvesse uma ligação entre os dois casos.
E aquelas palestras motivacionais em empresas então? Tem coisa pior do que um babaca, que só está lá porque é famoso ou deu alguma sorte na vida, falando um monte de asneiras do tipo “Vocês conseguem!” “Nada é impossível se você tiver força de vontade!”? Ah, faça-me o favor! Se for para falar besteiras como essas, me paguem a metade do que pagam a esses figuras e eu faço a mesma coisa. E ainda distribuo pirulitos no final do discurso.
Resumindo:
Se você precisa de ajuda, vá conversar com sua família ou seus amigos. Esses, sim, querem o seu bem. Agora, gente que ganha dinheiro para ajudar os outros só ajuda a si mesmo. R.R. Soares & Companhia que o digam.
Mas isso fica para outra oportunidade.
P.S: qualquer semelhança desse texto com algum texto de autoajuda é mera coincidência. Ou não.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Quem é você?
- Oi. Quem é você?
- O quê?
Ela deu um sorriso tímido e voltou a me perguntar o que eu achei que tinha entendido errado:
- Quem é você?
A princípio, achei que fosse uma daquelas pessoas que ficam parando você na rua para fazer perguntas sem pé, nem cabeça, e depois pegam seu telefone para, mais tarde, ligar e tentar vender alguma coisa qualquer. Mas a singelidade daquela miúda, e até que simpática, moça não me deixou sustentar tal afirmação. Fiquei meio confuso e perguntei:
- Desculpa, a gente se conhece?
Novamente, seus lábios se abriram e aquele sorriso cheio de vergonha preencheu seu rosto redondo, dessa vez, fazendo um movimento negativo, não de reprovação, mas de ingenuidade.
- Não, por isso mesmo estou perguntando. Quem é você?
Eu queria, simplesmente, virar as costas e ir embora, mas algo, que até hoje eu não sei o que foi, me fez ficar ali. Parado. Na avenida mais movimentada de São Paulo. Parado. Esperando por uma explicação para aquele diálogo totalmente non-sense.
- Mas...por que você quer saber? – perguntei em tom desconfiado
Ela deu com os ombros e seu rosto tomou uma expressão de estranheza que, particularmente, achei adorável.
- Por nada, ué. Vi você passando e resolvi perguntar.
Antes que eu pudesse reagir ao último comentário da pequena e meiga moça, que devia estar no auge dos seus 20 anos, tinha longos cabelos pretos, olhos amendoados e uma pele mais branca do que os próprios dentes, ela colocou as mãos na cintura e, com um tom agressivo, que fazia parecer que eu é quem havia abordado ela, me indagou:
- Afinal, quem é você, hein?!
Paralisado com a situação, não pude dizer sequer uma palavra. Ela ali, parada, marcando o ritmo da sua indignação com o pé direito, e eu não conseguia mover um dedo, quanto mais responder àquela pergunta tão estranha. Percebendo a minha condição estática, deixou evidenciar uma expressão de decepção, virou as costas e saiu andando numa velocidade razoável, como se quisesse se afastar rápido, mas sem perder a elegância.
Enquanto a desconhecida moça se afastava, aos poucos fui me recompondo e uma força maior me fez interromper o silêncio dos últimos 5 minutos:
- Espera! Por favor, desculpa!
Mas já era tarde demais, a curiosa já havia dobrado a esquina e saído do meu campo de visão.
O que me restava era ir embora com aquela situação em mente. Ao chegar em casa, como de praxe, não havia ninguém. Tirei os sapatos, deitei na cama e fiquei olhando para o teto. Aquela pergunta rondava os meus pensamentos: “Quem é você?”. Por um momento, fiquei arrependido de não ter respondido à pergunta daquela pequena. Pensei:
- Ora, e eu lá devo satisfação para uma desconhecida que me aborda no meio da rua?
Apaguei as luzes e me reclinei para dormir, mas não conseguia. Não podia.
No final das contas, o que me incomodou nem foi não ter respondido a pergunta à moça. Foi não ter perguntado isso à ela.
- O quê?
Ela deu um sorriso tímido e voltou a me perguntar o que eu achei que tinha entendido errado:
- Quem é você?
A princípio, achei que fosse uma daquelas pessoas que ficam parando você na rua para fazer perguntas sem pé, nem cabeça, e depois pegam seu telefone para, mais tarde, ligar e tentar vender alguma coisa qualquer. Mas a singelidade daquela miúda, e até que simpática, moça não me deixou sustentar tal afirmação. Fiquei meio confuso e perguntei:
- Desculpa, a gente se conhece?
Novamente, seus lábios se abriram e aquele sorriso cheio de vergonha preencheu seu rosto redondo, dessa vez, fazendo um movimento negativo, não de reprovação, mas de ingenuidade.
- Não, por isso mesmo estou perguntando. Quem é você?
Eu queria, simplesmente, virar as costas e ir embora, mas algo, que até hoje eu não sei o que foi, me fez ficar ali. Parado. Na avenida mais movimentada de São Paulo. Parado. Esperando por uma explicação para aquele diálogo totalmente non-sense.
- Mas...por que você quer saber? – perguntei em tom desconfiado
Ela deu com os ombros e seu rosto tomou uma expressão de estranheza que, particularmente, achei adorável.
- Por nada, ué. Vi você passando e resolvi perguntar.
Antes que eu pudesse reagir ao último comentário da pequena e meiga moça, que devia estar no auge dos seus 20 anos, tinha longos cabelos pretos, olhos amendoados e uma pele mais branca do que os próprios dentes, ela colocou as mãos na cintura e, com um tom agressivo, que fazia parecer que eu é quem havia abordado ela, me indagou:
- Afinal, quem é você, hein?!
Paralisado com a situação, não pude dizer sequer uma palavra. Ela ali, parada, marcando o ritmo da sua indignação com o pé direito, e eu não conseguia mover um dedo, quanto mais responder àquela pergunta tão estranha. Percebendo a minha condição estática, deixou evidenciar uma expressão de decepção, virou as costas e saiu andando numa velocidade razoável, como se quisesse se afastar rápido, mas sem perder a elegância.
Enquanto a desconhecida moça se afastava, aos poucos fui me recompondo e uma força maior me fez interromper o silêncio dos últimos 5 minutos:
- Espera! Por favor, desculpa!
Mas já era tarde demais, a curiosa já havia dobrado a esquina e saído do meu campo de visão.
O que me restava era ir embora com aquela situação em mente. Ao chegar em casa, como de praxe, não havia ninguém. Tirei os sapatos, deitei na cama e fiquei olhando para o teto. Aquela pergunta rondava os meus pensamentos: “Quem é você?”. Por um momento, fiquei arrependido de não ter respondido à pergunta daquela pequena. Pensei:
- Ora, e eu lá devo satisfação para uma desconhecida que me aborda no meio da rua?
Apaguei as luzes e me reclinei para dormir, mas não conseguia. Não podia.
No final das contas, o que me incomodou nem foi não ter respondido a pergunta à moça. Foi não ter perguntado isso à ela.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
A antiga vontade de inauguração.
Crônicas, contos, relatos cotidianos ou, simplesmente, besteiras. O que, antes, eu guardava apenas para mim, resolvi compartilhar.
Espero que gostem.
Espero que gostem.
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