Ela deu o último trago em seu cigarro. Aspirou aquela fumaça densa e branca, e deixou-a aproveitar a presença em seus pulmões durante alguns preciosos segundos. Então, soltou-a para atmosfera ao seu redor. A neblina foi se esvaindo, até que desapareceu, como se não houvesse mais motivo para existir, depois de ter vivido o ápice de sua trajetória no corpo daquela pequena.
Ele, por sua vez, envolveu seus dedos no velho copo de cerveja. O líquido já havia perdido a frieza do início, talvez devido ao calor de sua mão, por saber que estava abraçado com a obra-prima da natureza. Levou o copo até os lábios e deixou-se satisfazer com os últimos dois goles mornos. Apesar da temperatura da bebida, sentiu toda a refrescância que ela poderia lhe proporcionar. Então, deixou o copo de lado e lançou seu olhar à miúda que se encontrava no contorno de seus braços. Ela tinha o aroma de uma flor. Ele não sabia qual, mas sabia que ela era exatamente isso: uma flor. Das mais belas e raras. Daquelas que não se acha procurando, se acha por pura sorte.
Aproximou tanto os seus lábios dos dela, que era possível sentir o relevo formado pela pele. Parou e começou a admirar seu rosto bem de perto, sem dizer uma palavra. Tirou-lhe os cabelos do rosto, abraçou-a pela cintura e trouxe a pequena flor para mais junto de seu corpo. Seus lábios se encontraram novamente, dessa vez, com maior intensidade. A refrescância da cerveja e a densidade do cigarro eram evidentes no beijo, e isso só lhes dava vontade de continuar o ato.
Indiretamente, os prazeres que cada vício oferecia se misturaram a acabaram criando uma terceira dependência. Naquela noite, ele descobriu que naquela flor existe muito mais do que aroma e beleza. Existe um vício. E a dependência do cigarro e da cerveja não chegam nem perto da que ele causa.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
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A forma como você descreveu a tragada e o gole de cerveja foi demais. Conseguiu dar sensibilidade a ações nada sensíveis.
ResponderExcluirMuito bom.