quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Quem é você?

- Oi. Quem é você?
- O quê?

Ela deu um sorriso tímido e voltou a me perguntar o que eu achei que tinha entendido errado:

- Quem é você?

A princípio, achei que fosse uma daquelas pessoas que ficam parando você na rua para fazer perguntas sem pé, nem cabeça, e depois pegam seu telefone para, mais tarde, ligar e tentar vender alguma coisa qualquer. Mas a singelidade daquela miúda, e até que simpática, moça não me deixou sustentar tal afirmação. Fiquei meio confuso e perguntei:

- Desculpa, a gente se conhece?

Novamente, seus lábios se abriram e aquele sorriso cheio de vergonha preencheu seu rosto redondo, dessa vez, fazendo um movimento negativo, não de reprovação, mas de ingenuidade.

- Não, por isso mesmo estou perguntando. Quem é você?

Eu queria, simplesmente, virar as costas e ir embora, mas algo, que até hoje eu não sei o que foi, me fez ficar ali. Parado. Na avenida mais movimentada de São Paulo. Parado. Esperando por uma explicação para aquele diálogo totalmente non-sense.

- Mas...por que você quer saber? – perguntei em tom desconfiado

Ela deu com os ombros e seu rosto tomou uma expressão de estranheza que, particularmente, achei adorável.

- Por nada, ué. Vi você passando e resolvi perguntar.

Antes que eu pudesse reagir ao último comentário da pequena e meiga moça, que devia estar no auge dos seus 20 anos, tinha longos cabelos pretos, olhos amendoados e uma pele mais branca do que os próprios dentes, ela colocou as mãos na cintura e, com um tom agressivo, que fazia parecer que eu é quem havia abordado ela, me indagou:

- Afinal, quem é você, hein?!

Paralisado com a situação, não pude dizer sequer uma palavra. Ela ali, parada, marcando o ritmo da sua indignação com o pé direito, e eu não conseguia mover um dedo, quanto mais responder àquela pergunta tão estranha. Percebendo a minha condição estática, deixou evidenciar uma expressão de decepção, virou as costas e saiu andando numa velocidade razoável, como se quisesse se afastar rápido, mas sem perder a elegância.
Enquanto a desconhecida moça se afastava, aos poucos fui me recompondo e uma força maior me fez interromper o silêncio dos últimos 5 minutos:

- Espera! Por favor, desculpa!

Mas já era tarde demais, a curiosa já havia dobrado a esquina e saído do meu campo de visão.

O que me restava era ir embora com aquela situação em mente. Ao chegar em casa, como de praxe, não havia ninguém. Tirei os sapatos, deitei na cama e fiquei olhando para o teto. Aquela pergunta rondava os meus pensamentos: “Quem é você?”. Por um momento, fiquei arrependido de não ter respondido à pergunta daquela pequena. Pensei:

- Ora, e eu lá devo satisfação para uma desconhecida que me aborda no meio da rua?

Apaguei as luzes e me reclinei para dormir, mas não conseguia. Não podia.


No final das contas, o que me incomodou nem foi não ter respondido a pergunta à moça. Foi não ter perguntado isso à ela.

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