segunda-feira, 4 de julho de 2011

A última bala

Faz seis anos. Há exatamente seis anos aquela desgraçada descarregou no meio do meu peito o último projétil de um 38 que eu acredito ter sido usado durante a Segunda Guerra Mundial. Onde é que ela arranjou aquela merda? Me pergunto até hoje toda vez que passo os dedos na cicatriz que o disparo deixou nesse lugar que as pessoas chamam de boca-do-estômago. Que nome imbecil. Só não é mais imbecil do que eu, que continuo apaixonado por essa safada mesmo após o episódio. A bala abriu um rombo no meu peito e parece que desde então eu venho respirando por ele.

Os médicos diziam que era um milagre eu continuar vivo e que eu deveria “agradecer o cara lá de cima” por ainda conseguir andar com minhas próprias pernas. Agradecer o caralho! Eu tomo um tiro da mulher que amo e ainda sou obrigado a ficar de joelhos e levantar as mãos pro céu, sendo grato a um cara que nem existe? É engraçado como as pessoas acham um significado divino pra qualquer merda que aconteça. Os filhos das putas de jaleco branco viviam dizendo que se o tiro tivesse me atingido dois centímetros à esquerda, eu estaria numa cadeira de rodas agora. O que me deixa louco da cabeça é ver que eles sempre tentam enxergar o lado bom da coisa. Duvido que esses pilantras digam a algum paraplégico que se o projétil o tivesse atingido dois centímetros à esquerda, ele ainda estaria andando. Hipocrisia dos diabos.

Foda-se também. Há muito tempo eu deixei de ligar para o que as outras pessoas dizem ou sentem. A última vez que me importei com alguém ao meu redor, com exceção da Bárbara, foi antes do meu primeiro gole de whisky, quando eu ainda tinha sentimentos. Atualmente eu sou como uma máquina movida a álcool. Nem escrever mais eu consigo sem antes virar dois copos do velho Jack com soda. O mundo é chato demais para se andar por aí sóbrio, aguentando todas as porcarias que as pessoas vivem dizendo e fingindo que você se importa. Era isso que eu amava na Bárbara. Quer dizer, é isso. Ela tinha uma despreocupação com os corações batendo à sua volta que me fazia brilhar os olhos. Tudo o que ela queria era aproveitar os anos de juventude antes que as rugas surgissem e a sagacidade desaparecesse. Mulher esperta.

Será que ela ainda é assim? Faz tanto tempo que não a vejo que eu nem sei mais se ela ainda corta o cabelo curtinho do jeito que eu gosto. No nosso último encontro ela estava loira. Deslumbrante. Hipnotizante. Quase não lembrei que ela tinha tentado me matar. Quase não lembrei qual era o meu nome. Definitivamente não lembrei que estava com a conta negativa no banco ao emprestar trezentos mangos para ela pagar a dívida com seu fornecedor de alucinógenos. Era isso ou a mais nova baleada do pedaço seria ela. E acho que o disparo seria dois centímetros mais certeiro do que o que ela fez em mim.

Nada vai fazer aquela bala voltar pro revólver. Nada vai fazer a Bárbara voltar pra mim. Mas eu não conseguiria viver sem tentar uma última vez tê-la novamente entrelaçada ao meu corpo em um daqueles momentos que ninguém quer que acabe:

- Você sempre fecha os olhos e vira o pescoço pra direita quando goza, sabia? – disse a ela, logo depois de termos mais uma sessão do sexo mais incrível que eu já tive na vida inteira.

- É que eu não consigo deixar que me olhem nos olhos em um momento tão vulnerável. – retrucou.

Ela era extremamente orgulhosa. Nunca se deixava ser pega em um momento de fraqueza. A única vez que a vi chorando foi quando ela apontou o revólver pra mim e disse:

- Achei que você era diferente.

Depois disso, só me lembro de estar no chão sentindo meu peito arder como se houvesse uma fogueira dentro de mim. Porra, como doía. Então tudo ficou escuro e eu acordei numa cama de hospital sem fazer a mínima ideia de como fui parar ali. Depois descobri que a velha fofoqueira da minha vizinha ouviu um barulho estranho e decidiu chamar a polícia. Você não tem noção do que é dever sua vida a uma velha filha da puta. Dá desgosto a cada bombeada de sangue que o seu coração manda pro organismo. Se não fosse pela Bárbara eu preferiria estar morto a dever um “obrigado” a essa infeliz ou a qualquer outro ser humano.

A única coisa que me importa agora é que quem está com a arma na mão sou eu e a única bala que está no tambor já tem endereço: a minha cabeça, a cabeça da Bárbara ou a cabeça do filho da puta que estiver transando com ela atualmente. Giro a arma no chão e espero ela apontar pro meu destino.

Vamos ver aonde essa porra me leva.

5 comentários:

  1. O Bukowski dos novos tempos. Muito bom texto, se não fosse pelo nome da personagem.

    Deu vontade de saber mais desses dois, tipo como quando você sente vontade de pedir um livro emprestado.

    ResponderExcluir
  2. Fabuloso, deixa aquele gostinho de quero mais...

    ResponderExcluir
  3. Calma aí, Não digo Bukowski mais um bom aluno dele, achei maduro André... É podre, curto o podre, ser o bad guy sabe, mais tenho dificuldades pra escrever é admirável escrever esse lado.

    ResponderExcluir
  4. muito bom cara, escreveu quando esse ? abraço

    ResponderExcluir