Todo dia é a mesma coisa: o despertador toca, eu desligo e durmo. O despertador toca, eu desligo e durmo. Fico fazendo isso até que a sensação de acordar seja a menos dolorosa possível. Digo dolorosa, porque quando piso fora de casa e atravesso a rua, ainda com os cabelos desarrumados e as olheiras causadas pela insônia, lembro da difícil tarefa que tenho pela frente: chegar ao trabalho.
O trajeto é longo e a missão é difícil. Principalmente pelo fato de que o metrô da capital paulista nunca (e quando eu digo nunca, é nunca mesmo) está vazio. Em meio a empurrões, gente presa na porta, odores desagradáveis e a completa falta de respeito ao próximo, estou eu, sentindo um ódio mortal pelas manhãs.
Considero isso como a melhor e mais sucinta definição de caos urbano. Alguns até dizem que a linha central do metrô foi projetada pelo próprio Capeta. Outros se arriscam ainda mais, dizendo que após a última estação o trem ruma direto ao inferno. Eu apenas conto os segundos até a minha estação-destino.
Sonho com um dia em que entrarei no metrô e ele estará absolutamente vazio. Um dia em que eu possa escolher em qual dos bancos sentar. Um dia em que eu possa me acomodar no assento reservado aos idosos e poder tirar um breve cochilo, sem ter que me preocupar em ceder o lugar, caso um dos citados entre no trem. Mas sempre que passo da catraca e estou descendo a escada rolante, percebo: é um sonho impossível.
Já são oito e meia da manhã e cá estou eu, de novo. Passaram dois trens e não consegui embarcar, devido à extrema lotação. Ao meu lado está uma garota que estou observando discretamente, mas intensamente, desde que cheguei. Baixa estatura, olhos claros e cabelos curtos e pretos, contrastando com a pele branca e delicada. Nas costas, uma mochila. Na mão, um livro. É o meu livro favorito. Pura coincidência. O próximo trem para e nós entramos, não porque queremos, mas porque é inevitável. Puxo assunto:
- Esse metrô é coisa de louco, né?
Ela responde e a conversa flui de uma maneira incrível. Em 15 minutos, conversamos sobre música, cinema, literatura, arte e chega a ser engraçado como os nossos gostos combinam perfeitamente. Quando estou prestes a lhe pedir o telefone, o trem para e ela diz:
- Eu desço aqui. Olha, sempre pego o metrô. A gente se esbarra por aí.
E com um beijo no meu rosto, se despede e some em meio à multidão.
“A gente se esbarra por aí”? Meu conceito de metrô perfeito parece ter sido abalado. Esse episódio me obrigou a ter que escolher entre dois vazios: o do metrô ou o do coração. E é aí que eu me entrego.
- Dá licença? Eu desço no próximo.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
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