terça-feira, 27 de setembro de 2011

despertador

me dê sua mão.
e com os dedos entrelaçados
vamos nos elevar
e observar o mundo de
outro nível.
um nível que o sonho médio
não pode alcançar.
um nível em que apenas
o encontro dos nossos olhares
e o toque de nossas peles
nos faça entender que
cinco minutos
a mais de sono
são cinco minutos a menos
de poesia.

me dê sua mão
e vamos despertar dessa realidade
para viver a utopia que
permeia nossos anseios.
quatro pés descalços
na grama molhada
é tudo
o que peço para poder enfrentar
o medo de uma vida vazia.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

mal (interpretado)

tenho sido mal
interpretado.
acusado de ferir
com abraços e beijos.
as manchetes gritam
em letras grossas e assustadoras
que mais lágrimas foram
derrubadas em meu nome.
mas nenhum fotógrafo registrou
quando derrubei as minhas próprias.

não quero criar falsas
histórias de amor,
nem amorosas histórias
de falsidade.
apenas desejo proteger
nossos corações de sofrerem
outro trauma irreparável,
mas o júri não entende
o meu argumento.

e quando elas vão embora com raiva
e choram
e xingam
e superam
e vivem
e amam,
sou eu que fico

sozinho

imaginando onde é que foram parar
os meus sentimentos.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

enjoativo

eu tento.
juro que tento.
mas pro meu coração
bater mais
forte,
só tomando uma jarra
de café com duas colheres
e meia de açúcar.
alguma coisa precisa ser
doce por aqui.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A última bala

Faz seis anos. Há exatamente seis anos aquela desgraçada descarregou no meio do meu peito o último projétil de um 38 que eu acredito ter sido usado durante a Segunda Guerra Mundial. Onde é que ela arranjou aquela merda? Me pergunto até hoje toda vez que passo os dedos na cicatriz que o disparo deixou nesse lugar que as pessoas chamam de boca-do-estômago. Que nome imbecil. Só não é mais imbecil do que eu, que continuo apaixonado por essa safada mesmo após o episódio. A bala abriu um rombo no meu peito e parece que desde então eu venho respirando por ele.

Os médicos diziam que era um milagre eu continuar vivo e que eu deveria “agradecer o cara lá de cima” por ainda conseguir andar com minhas próprias pernas. Agradecer o caralho! Eu tomo um tiro da mulher que amo e ainda sou obrigado a ficar de joelhos e levantar as mãos pro céu, sendo grato a um cara que nem existe? É engraçado como as pessoas acham um significado divino pra qualquer merda que aconteça. Os filhos das putas de jaleco branco viviam dizendo que se o tiro tivesse me atingido dois centímetros à esquerda, eu estaria numa cadeira de rodas agora. O que me deixa louco da cabeça é ver que eles sempre tentam enxergar o lado bom da coisa. Duvido que esses pilantras digam a algum paraplégico que se o projétil o tivesse atingido dois centímetros à esquerda, ele ainda estaria andando. Hipocrisia dos diabos.

Foda-se também. Há muito tempo eu deixei de ligar para o que as outras pessoas dizem ou sentem. A última vez que me importei com alguém ao meu redor, com exceção da Bárbara, foi antes do meu primeiro gole de whisky, quando eu ainda tinha sentimentos. Atualmente eu sou como uma máquina movida a álcool. Nem escrever mais eu consigo sem antes virar dois copos do velho Jack com soda. O mundo é chato demais para se andar por aí sóbrio, aguentando todas as porcarias que as pessoas vivem dizendo e fingindo que você se importa. Era isso que eu amava na Bárbara. Quer dizer, é isso. Ela tinha uma despreocupação com os corações batendo à sua volta que me fazia brilhar os olhos. Tudo o que ela queria era aproveitar os anos de juventude antes que as rugas surgissem e a sagacidade desaparecesse. Mulher esperta.

Será que ela ainda é assim? Faz tanto tempo que não a vejo que eu nem sei mais se ela ainda corta o cabelo curtinho do jeito que eu gosto. No nosso último encontro ela estava loira. Deslumbrante. Hipnotizante. Quase não lembrei que ela tinha tentado me matar. Quase não lembrei qual era o meu nome. Definitivamente não lembrei que estava com a conta negativa no banco ao emprestar trezentos mangos para ela pagar a dívida com seu fornecedor de alucinógenos. Era isso ou a mais nova baleada do pedaço seria ela. E acho que o disparo seria dois centímetros mais certeiro do que o que ela fez em mim.

Nada vai fazer aquela bala voltar pro revólver. Nada vai fazer a Bárbara voltar pra mim. Mas eu não conseguiria viver sem tentar uma última vez tê-la novamente entrelaçada ao meu corpo em um daqueles momentos que ninguém quer que acabe:

- Você sempre fecha os olhos e vira o pescoço pra direita quando goza, sabia? – disse a ela, logo depois de termos mais uma sessão do sexo mais incrível que eu já tive na vida inteira.

- É que eu não consigo deixar que me olhem nos olhos em um momento tão vulnerável. – retrucou.

Ela era extremamente orgulhosa. Nunca se deixava ser pega em um momento de fraqueza. A única vez que a vi chorando foi quando ela apontou o revólver pra mim e disse:

- Achei que você era diferente.

Depois disso, só me lembro de estar no chão sentindo meu peito arder como se houvesse uma fogueira dentro de mim. Porra, como doía. Então tudo ficou escuro e eu acordei numa cama de hospital sem fazer a mínima ideia de como fui parar ali. Depois descobri que a velha fofoqueira da minha vizinha ouviu um barulho estranho e decidiu chamar a polícia. Você não tem noção do que é dever sua vida a uma velha filha da puta. Dá desgosto a cada bombeada de sangue que o seu coração manda pro organismo. Se não fosse pela Bárbara eu preferiria estar morto a dever um “obrigado” a essa infeliz ou a qualquer outro ser humano.

A única coisa que me importa agora é que quem está com a arma na mão sou eu e a única bala que está no tambor já tem endereço: a minha cabeça, a cabeça da Bárbara ou a cabeça do filho da puta que estiver transando com ela atualmente. Giro a arma no chão e espero ela apontar pro meu destino.

Vamos ver aonde essa porra me leva.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

mulheres & palavras

por que
você tem que ser tão
louca?
a gente tinha tudo
pra dar certo
e escrever
poemas de amor um pro
outro.
pena que você
é uma porra de uma
louca.

domingo, 12 de junho de 2011

Sobre amores e vinhos

Eu nunca fui um apreciador de vinhos. Sempre quis ser, mas nunca fui. Não sei se é o gosto seco, ou talvez essa sensação de nó na língua que eles proporcionam, mas o fato é que os vinhos me passam um sentimento incompleto. São como os amores mais românticos pelos quais já passei ou simplesmente presenciei.

O amor perfeito nunca se completa.

Demorei pra perceber isso, mas parece que finalmente a ficha caiu. Vejo casais anunciando a todos ao seu redor toda a paixão que sentem um pelo outro e aí me pergunto: o prazer está em sentir o amor ou em demonstrar às pessoas que o está sentindo?

O “amor” é coletivo.

Ou você já viu algum desses degustadores de vinho escondendo ou, pelo menos, evitando dizer o quanto amam o gosto das uvas pisoteadas em suas bocas? Inventam mil e uma maneiras de tornar suas práticas dignas de inveja. Taças especiais, rituais sem sentido, combinações únicas.

Frescura.

Vinho é apenas vinho. Amor é apenas amor. Nada de especulações. Nada de pronunciamentos. A beleza de ambos está justamente entre ambos. Você bebe o vinho e aproveita cada sensação que ele desperta. Se isso, e apenas isso, não lhe agrada, então talvez todo esse negócio não seja tão importante assim. Mas quem sou eu para tentar analisar algo tão complexo?

Eu não sei tomar vinho. Muito menos amar.

Posso tentar fazer qualquer um dos dois, mas não posso garantir sucesso. Os vinhos e os amores são servidos em taças e eu só bebo em shot.

Head shot.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

de que serve?

de que serve a paixão,
se não ferve?
de que presta o amor,
se não testa?
atesta a solidão.

em vão, não. em vão, não.

pode ir.
mas se quiser, fica. e me explica:
de que serve?
acredita na maldita
sorte.
e espera.
espera.
espera.

ela chega. e se esvai.
me atrai. e se distrai.

e se vai.
se foi.
adeus.